Rota Megalítica em Reguengos de Monsaraz

por Nuno Madeira
Rota Megalítica por Reguengos de Monsaraz | Diário do Viajante

Aproveitei para realizar esta Rota Megalítica pelo facto de visitar Reguengos de Monsaraz num fim de semana de 3 dias, descendo depois até Mértola. Visitar esta zona nas margens do Alqueva já era um desejo antigo até porque faltava conhecer esta parte do Alentejo, bem como a zona mais a sul até Mértola.

Estas terras já foram densamente povoadas nos tempos pré-históricos e este conjunto de monumentos vai certamente criar uma experiencia única aos amantes desta arte milenar, mas também dos simples curiosos como eu.

Sejam antas ou menires, o concelho é privilegiado com mais de 150 achados arqueológicos deixados pelos nossos antepassados pré-históricos, que aqui habitaram há mais de 6000 anos!

A fixação do Homem à terra onde habitava levou à necessidade de erguer estes enormes blocos de granito esculpidos, cujos objetivos principais seriam a demarcação do terreno e a prática do culto à fertilidade e ao desconhecido, que se traduziam nos fenómenos atmosféricos.

Sem dúvida que este conjunto de monumentos e vestígios megalíticos é o reflexo da permanência do Homem na região, favorecida pelas vastas e férteis planícies alentejanas e que acolhe também um dos maiores lagos artificiais de todo o continente europeu, o Grande Lago Alqueva.

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É importante referir que esta Rota Megalítica não fica completa se não referir dois monumentos que ficaram de fora, por razões diferentes.

O primeiro é um conjunto pré-histórico, com cerca de 5000 anos, constituído pelos vestígios de um santuário megalítico, incluindo diversos menires. Este complexo, que pertence ao Museu Arqueológico do Complexo dos Perdigões está situado na Herdade do Esporão e suscitou o interesse da comunidade cientifica internacional, tendo-se convertido numa referência para a investigação pré-história europeia.

A Herdade do Esporão assumiu desde o primeiro instante a vontade e a responsabilidade pelo estudo e preservação deste conjunto patrimonial, assumindo o custo de não plantar vinha na área do sítio arqueológico e participando financeiramente na sua investigação científica, em curso desde 1997.

O segundo, um menir encontrado em escavações realizadas no Monte da Ribeira nos anos 90 com cerca de 4,7 metros de altura e 1 metro de largura.

Este exemplar, datado de fins do 4º milénio ou na transição para o 3º milénio a.C., encontra-se agora instalado numa sala reservada a objetos pertencentes à cultura megalítica no Museu Megalítico José Maria da Fonseca.

Esta rota, composta por 5 paragens, poderá demorar cerca de 2 horas, dependendo do andamento de cada um. Pode ser realizada quer por mota, quer por carro, sem qualquer problema. No entanto, e porque passa por estradas de terra batida é aconselhável a utilização de pneus mistos nas motas.

Menir da Rocha dos Namorados

Valiosa testemunha da continuidade dos cultos relacionados com a fecundidade ao longo dos tempos.

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A primeira paragem é o Menir da Rocha dos Namorados a pouco mais de 6 quilómetros de Reguengos de Monsaraz em direção a Monsaraz pela M514.

Este menir é um afloramento natural de granito, em forma de cogumelo. Com cerca de 7 metros de perímetro é uma valiosa testemunha da continuidade dos cultos relacionados com a fecundidade ao longo dos tempos.

Com mais de 2 metros de altura, apresenta ainda várias “covinhas” que podem estar relacionadas com elementos gráficos de significado desconhecido, mas comum no megalitismo. Tem ainda uma cruz que deverá ter sido talhada para cristianizar algum antigo ritual de fertilidade.

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O topo está coberto de pequenas pedras soltas que representam um antigo ritual pagão que se manteve até hoje.

Segundo a tradição, as raparigas solteiras vão ali na segunda-feira de Páscoa para consultar o menir em matéria do seu casamento. Cada pedra atirada ao topo do monumento e que caia representa um ano de espera em relação ao casamento. A quem quiser experimentar, não esquecer que o ritual terá que ser realizado com a mão esquerda e de costas para o menir.

Alguém quer tentar?

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Antas do Olival da Pega

A importância destas antas foi visível pela quantidade de peças funerárias encontradas durante o seu estudo.

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Neste local foram construídas as duas Antas do Olival da Pega, datadas de 3500 a 3000 a.C., que completavam um complexo funerário de proporções incríveis, destacando-se a espessura da laje de cobertura da Anta Grande.

A importância destas antas foi visível pela quantidade de peças funerárias encontradas durante o seu estudo, que reuniu cerca de 134 placas de xisto e 200 vasos cerâmicos, mas também pela sua necrópole de características assumidamente coletivas onde estariam sepultadas aproximadamente 140 e 118 pessoas, respetivamente, em cada um dos complexos.

Confesso que quando visitei este local apenas consegui identificar uma das antas, mas após uma pequena investigação na internet aquilo que pude constatar é que a segunda anta, que não aparece nas fotos, seria provavelmente a anta de menores dimensões onde restam apenas as paredes, já que não tem a laje de cobertura… fica a dúvida.

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Já por estradão de terra batida e mesmo sob o calor intenso que se fazia abater sobre as planícies alentejanas, valia a pena visitar estes monumentos com milhares de anos, registo de uma história que ali aconteceu.

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Menir do Outeiro

Considerado o mais impressionante menir isolado da Península Ibérica e um dos mais notáveis da Europa.

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A meio caminho entre as povoações do Outeiro e da Barrada, encontramos o Menir do Outeiro, também conhecido na região por “Penedo Comprido”, eleva-se a uma altura de mais de 5,6 metros com um topo que se assemelha a um báculo com 30 cm de diâmetro.

Foi reerguido na sua localização original em 1969, ano em que foi descoberto, e é considerado o mais impressionante menir isolado da Península Ibérica e também um dos mais notáveis da Europa.

Uma vez que as fotos foram captadas com uma lente grande angular, as mesmas não dão a perceção da altura do menir mas de facto a sua altura destaca-se na planície, pela sua imponência.

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Menir da Bulhoa / Belhoa

As ornamentações valeram-lhe o reconhecimento enquanto Monumento Nacional em 1970.

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Deixando o estradão de terra batida para trás e já a rolar sobre alcatrão, encontramos o Menir da Bulhoa, também conhecido por Menir da Belhoa. Sinceramente vi tanta informação com os dois nomes que não sei se há um correto ou se adotou os dois nomes.

A cerca de 50 metros da estrada, este menir foi encontrado partido neste mesmo local em 1970, tendo sido reerguido no mesmo ano sobre uma base de granito na tentativa de reconstruir a sua altura original.

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Embora dando ideia de serem duas peças distintas, pela cor que granito ganhou, é possível ver no topo a gravação de um grande sol, báculos e linhas em forma de serpente a descer até meio do menir.

Estas inscrições valeram o reconhecimento enquanto Monumento Nacional e a sua datação remonta, provavelmente, a 6000-5000 a.C., correspondendo às primeiras sociedades camponesas na região já que os báculos remetem para a atividade pastoril, podendo o menir relacionar-se com a demarcação e apropriação do território.

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Cromeleque do Xerez

De formato quadrangular, é composto por 50 menires e desenvolve-se em torno de um menir central com cerca de 4 m.

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A poucos metros do Convento da Orada encontramos o Cromeleque do Xerez que, juntamente com o Cromeleque dos Almendres, perto de Évora, deverá ser o que mais parecido temos com o famoso Stonehenge, em Inglaterra.

Este tipo de monumento, normalmente exposto em encostas nascente-sul, é um conjunto de diversos menires dispostos em um ou vários circulos, em elipses, em rectangulos, em semicírculos ou ainda em estruturas mais complexas como acontece com o Cromeleque dos Almendres.

Este monumento megalítico apresenta um singular formato quadrangular composto por 50 menires de granito, com alturas a variarem entre 1,20 – 1,50 metros, e desenvolve-se em torno de um menir central com cerca de 4 metros de altura que apresenta numa das suas faces diversas marcas, provavelmente de inscrições gráficas, em toda a sua verticalidade.

Identificado em 1969, este cromeleque deverá ter sido erguido no inicio de 4000 e meados de 3000 a.C. e está associado ao culto dos astros e da natureza, sendo considerado um local de rituais religiosos e encontros tribais. Talvez por estas razões seja um dos locais preferidos para fotografias noturnas de longa exposição.

Este cromeleque foi o único monumento da região a ser transferido, em 2004, devido à construção da barragem de Alqueva.

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Terminanda a rota megalítica, e caso estejam a caminho de Monsaraz, recomendo uma rápida visita à Ermida de São Bento porque, para além da vista em seu redor que se perde no horizonte, poderão observar o Cromeleque do Xerez de uma posição elevada e privilegiada, embora distante.

À sua esquerda, talvez mais facilmente identificável, encontram o Convento da Orada.

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Se passarem por perto, não percam a oportunidade de visitar estes monumentos com vários milhares de anos que acabam por ser história dos nossos antepassados, e não vai perder mais que uma a duas horas a realizar o percurso.

Coordenadas da Rota Megalítica em Reguengos de Monsaraz

Menir da Rocha dos Namorados: 38.44487,-7.47546 | 38° 26′ 41.532″ N 7° 28′ 31.656″ W
Anta do Olival da Pega: 38.45045,-7.39897 | 38° 27′ 1.620″ N 7° 23′ 56.292″ W
Menir do Outeiro: 38.47034,-7.39358 | 38° 28′ 13.224″ N 7° 23′ 36.888″ W
Menir da Bulhoa / Belhoa: 38.46239,-7.38143 | 38° 27′ 44.604″ N 7° 22′ 53.148″ W
Cromeleque do Xerez: 38.45226, -7.37312 | 38° 27′ 8.136″ N 7° 22′ 23.232″ W

Mapa

2 comentários

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2 comentários

M. Aguiar 8 Julho 2019 - 21:42

Tudo muito desprezado

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M. Aguiar 8 Julho 2019 - 21:43

Tudo muito desprezado e nao e comentario duplicado

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