História de Myanmar
Visitei Myanmar em 2019, numa fase diferente da que o país vive hoje. O texto abaixo foi revisto e atualizado, mas, no caso de Myanmar, a realidade política e social mudou muito desde então. Por isso, esta secção deve ser lida como um enquadramento histórico e cultural do país, tendo em conta que a situação atual é bastante mais instável do que aquela que encontrei quando lá estive.
Conhecida durante o período colonial britânico como Birmânia (Burma), designação que continua a ser usada por alguns governos e instituições estrangeiras, Myanmar tem uma história marcada por diferentes povos, reinos e ciclos de unificação. Ao longo dos séculos, o território foi ocupado por grupos como os Pyu, os Mon, povos tibeto-birmaneses e, mais tarde, vários povos tai/shan.
O primeiro grande reino unificado consolidou-se em Pagan (atual Bagan) no século XI, sobretudo durante o reinado de Anawrahta, que iniciou um processo de unificação política e religiosa no território. No final do século XIII, as invasões mongóis contribuíram para a queda de Pagan e abriram caminho a um longo período de fragmentação política.
Ao longo dos séculos seguintes, sucederam-se várias dinastias ao longo do rio Irrawaddy, até à chegada dos britânicos. A conquista colonial aconteceu por etapas e ficou concluída em 1886, após a queda de Mandalay, altura em que a Birmânia passou a integrar a Índia britânica. Este período marcou profundamente o país e ajudou a moldar muitas das tensões políticas e identitárias que se fariam sentir mais tarde.
Durante a Segunda Guerra Mundial, os japoneses expulsaram os britânicos da Birmânia, mas a oposição à ocupação japonesa cresceu rapidamente. Aung San, que viria a tornar-se uma das figuras mais importantes da história do país, acabou por liderar a luta que abriu caminho à independência, alcançada em 1948.
Em 1962, um golpe militar liderado por Ne Win pôs fim ao período parlamentar e abriu caminho a décadas de regime autoritário, isolamento e controlo estatal. Em 1988, uma grande revolta popular, com forte participação de estudantes e monges budistas, foi brutalmente reprimida. Depois dessa repressão, os militares reorganizaram o poder através do SLORC (State Law and Order Restoration Council).
Foi neste contexto que Aung San Suu Kyi, filha de Aung San, se tornou a principal voz da oposição democrática. Nas eleições multipartidárias de 1990, as primeiras em cerca de 30 anos, a Liga Nacional para a Democracia (NLD) venceu de forma esmagadora. Ainda assim, o resultado foi ignorado pela junta militar, e Aung San Suu Kyi passou quase 15 anos em prisão domiciliária ao longo de cerca de duas décadas.
Os problemas do país prolongaram-se nas décadas seguintes. Em 2007, a chamada Revolução Açafrão levou milhares de pessoas às ruas em protesto contra o aumento dos preços dos combustíveis e contra o regime, mas a repressão voltou a ser violenta. Em 2010, eleições boicotadas pela NLD abriram caminho à presidência de Thein Sein, num período em que o país começou a dar alguns sinais de abertura política.
Aung San Suu Kyi foi libertada em 2010, muitas sanções internacionais começaram a ser levantadas em 2012, e as eleições de 2015 deram uma vitória clara à NLD. Em 2016, iniciou-se uma transição para um governo civil, embora os militares continuassem a manter um peso enorme no poder e nas instituições do Estado.
Ainda assim, essa abertura política acabou por ser interrompida pelo golpe militar de 1 de fevereiro de 2021. Desde então, Myanmar mergulhou novamente num contexto de repressão, resistência armada e conflito prolongado, realidade muito diferente daquela que eu encontrei quando visitei o país em 2019.
Sabias que:
Durante muito tempo, Myanmar foi apontado como um dos poucos países que não usavam plenamente o sistema métrico. No entanto, essa ideia está hoje desatualizada, já que o país tomou medidas no sentido da metricação. Ainda assim, continuam a existir unidades tradicionais locais, como o peittha ou viss, usadas sobretudo em contextos mais informais ou tradicionais.
É muito comum ver pessoas em Myanmar com o rosto pintado com thanaka, uma pasta amarelada feita a partir da casca de certas árvores. Para além do lado estético, a thanaka é tradicionalmente usada como proteção solar e cuidado da pele, e vários estudos identificaram nela compostos com propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e fotoprotetoras.
Embora Myanmar seja maioritariamente budista, muitos habitantes também mantêm crenças ligadas aos nats, espíritos da tradição animista birmanesa. Estes espíritos continuam a ter um papel importante na religiosidade popular, e o Monte Popa é frequentemente associado a esse universo simbólico.

Língua em Myanmar
A língua oficial de Myanmar é o birmanês, mas o país tem uma enorme diversidade linguística e étnica, com muitas outras línguas faladas em diferentes regiões. O inglês continua a ter presença em contextos ligados aos negócios, à educação e ao turismo, embora o nível de fluência varie bastante.
Na minha viagem, senti isso em vários momentos. Mesmo em alguns hotéis, a comunicação nem sempre foi fácil, porque nem toda a gente falava inglês de forma minimamente percetível. Saber algumas palavras básicas em birmanês pode fazer diferença e costuma ser bem recebido.
Cultura em Myanmar
Religião em Myanmar
Myanmar é um país maioritariamente budista Theravada. Segundo os dados do censo de 2014, cerca de 87,9% da população identificava-se como budista, seguindo-se comunidades cristãs, muçulmanas, animistas e hindus.
Ao mesmo tempo, a prática religiosa no país não se resume apenas ao budismo formal. Em muitos casos, o budismo convive com crenças populares ligadas aos nats, num exemplo claro de como tradição religiosa e cultura local se cruzam no quotidiano.

Convenções Sociais em Myanmar
O cumprimento com aperto de mão é relativamente comum, sobretudo em contextos mais formais ou urbanos, e o uso da mão direita continua a ser visto como mais adequado em várias interações sociais. A cortesia, o respeito e uma postura discreta são geralmente valorizados.
Os nomes em Myanmar seguem convenções próprias e, na maioria dos casos, não existem apelidos de família herdados à maneira ocidental. É comum ver títulos honoríficos ou formas de tratamento como U para homens mais velhos ou respeitados, Daw para mulheres mais velhas ou respeitadas, Ko para homens jovens ou adultos, Maung para rapazes mais novos e Ma para mulheres mais novas.
Ao visitar espaços religiosos, deves tirar os sapatos e normalmente também as meias. Em muitas casas tradicionais, também é habitual deixar o calçado à entrada. Ao sentares-te, evita apontar os pés a outras pessoas ou a imagens de Buda, porque isso pode ser visto como desrespeitoso.
A roupa deve ser modesta, sobretudo em locais religiosos. Faz sentido evitar ombros descobertos, decotes e peças demasiado curtas, tanto em mulheres como em homens. Em alguns templos ou locais mais tradicionais, os calções acima do joelho podem ser mal vistos ou até não ser permitidos.
