Um país que agora luta para se reerguer
O Sri Lanka vive, desde finais de novembro de 2025, um dos episódios climáticos mais graves da sua história recente. As chuvas torrenciais, cheias e deslizamentos provocados pelo ciclone Ditwah causaram centenas de mortos, milhares de desalojados e uma destruição que ainda está a ser contabilizada: casas, estradas, linhas férreas e infraestruturas essenciais ficaram danificadas ou completamente arrasadas.
Para mim, que acabei de viajar pela ilha no final de julho e guardo memórias tão recentes das pessoas e dos lugares, é impossível ver estas imagens sem um aperto no peito. Revi, nas notícias, zonas por onde passei, estradas que percorri e vilas onde fui recebido sempre com um sorriso, mesmo por pessoas que tinham muito pouco. É muito complicado perceber que muitas dessas comunidades estão agora a lutar para sobreviver.

O que aconteceu no Sri Lanka
Entre 23 e 24 de novembro, o ciclone Ditwah aproximou-se da ilha e trouxe precipitação extrema. Em algumas zonas do centro e norte registaram-se entre 350 e 375 mm de chuva em apenas 24 horas, números que ultrapassam o habitual para a época das monções.
Com tanta água num espaço tão curto de tempo, rios transbordaram, estradas abriram crateras e encostas saturadas colapsaram, criando um cenário de cheias súbitas em vários distritos. Perante a gravidade da situação, foi emitido um alerta vermelho nacional, com avisos de risco elevado de cheias e deslizamentos.
As autoridades encerraram escolas, suspenderam serviços públicos e cancelaram ligações ferroviárias, pedindo à população que evitasse deslocações não essenciais.
Balanço humano e destruição
Até 30 de novembro, os números oficiais apontavam para 150–190 mortos, mais de 170–200 desaparecidos e centenas de feridos. É um dos desastres climáticos mais severos que o Sri Lanka viveu na última década. Centenas de milhares de pessoas foram afetadas e dezenas de milhares tiveram de abandonar as suas casas, ficando em centros de acolhimento temporário apoiados pelo governo e forças armadas.
A destruição física é igualmente dramática: mais de 20.000 casas ficaram completamente destruídas, e muitas outras sofreram danos sérios. Estradas nacionais, pontes, linhas férreas e redes elétricas foram cortadas por água, lama, pedras e quedas de árvores. Em algumas regiões, um terço do país chegou a ficar sem eletricidade e sem acesso a água potável, e houve falhas prolongadas de telecomunicações, dificultando operações de resgate e comunicação com comunidades isoladas.

As zonas mais afetadas
A região montanhosa do centro, conhecida pelas plantações de chá, foi especialmente atingida. Em distritos como Badulla e Nuwara Eliya houve deslizamentos mortais e aldeias parcialmente soterradas. Cidades muito procuradas, como Kandy ou Nuwara Eliya por onde passei, registaram cheias, cortes de estrada e hotéis inundados, obrigando à evacuação de hóspedes.
No norte de Colombo, o rio Kelani subiu rapidamente e inundou bairros residenciais e vias principais. A situação obrigou ao desvio de vários voos internacionais, tanto dentro como fora do país, e muitos viajantes viram-se obrigados a replanejar itinerários já em andamento.
Impacto no turismo e nas deslocações internas
As cheias e deslizamentos provocaram cancelamentos e atrasos de comboios, autocarros e transfers privados. Rotas muito usadas por visitantes, como Colombo–Kandy ou os trajetos pelas terras altas, ficaram temporariamente intransitáveis.
Em várias zonas de montanha, hotéis tiveram quartos alagados e alguns hóspedes passaram a noite em áreas comuns por motivos de segurança. Operadores turísticos reportaram grupos impossibilitados de cumprir itinerários devido a estradas destruídas ou bloqueadas.
Apesar de tudo, o país não fechou ao turismo. Muitas regiões continuam operacionais, embora com necessidade de acompanhamento constante das condições e com a recomendação de flexibilidade nos planos de viagem. Quem estiver a planear visitar o Sri Lanka nas próximas semanas deve seguir avisos oficiais, manter contacto com alojamentos e preparar-se para ajustar rotas.
A dimensão estrutural: clima, risco e resiliência
Especialistas ligam este desastre a um padrão crescente de eventos climáticos extremos no Sul da Ásia. Chuvas torrenciais e ciclones estão a tornar-se mais frequentes e intensos, e países densamente povoados, como o Sri Lanka, são particularmente vulneráveis.
A ocupação de encostas, o crescimento urbano desordenado e sistemas de drenagem insuficientes aumentam o impacto quando o volume de água ultrapassa a capacidade do solo e das infraestruturas.
O país tem investido em ferramentas de gestão de risco, como mapas de impacto que integram dados de cheias, deslizamentos, secas e tsunamis, mas este episódio reforça a urgência de melhorar sistemas de alerta, realojar comunidades em zonas de perigo e adaptar estradas, linhas férreas e áreas urbanas a condições climáticas cada vez mais extremas.

Viajar para um país em recuperação
Em 2025, o Sri Lanka estava já num processo de recuperação económica, com o turismo a desempenhar um papel fundamental. Esta catástrofe acrescenta um enorme desafio num momento em que o país depende de visitantes para gerar emprego, receitas e investimento.
Mas muitos especialistas lembram também que o turismo, quando responsável, pode ter um impacto positivo: apoiar projetos locais, valorizar práticas sustentáveis, dar visibilidade a comunidades em recuperação e contribuir diretamente para a revitalização de destinos.
Para quem, como eu, voltou recentemente do Sri Lanka com uma ligação afetiva ao país e às pessoas, fica um sentimento de impotência, mas também a certeza de que regressar, no momento certo, e apoiar negócios locais pode fazer a diferença.
Como ajudar: apoio às comunidades afetadas
Depois desta tragédia, senti necessidade de incluir aqui um apelo.
Estive no Sri Lanka há pouco tempo e guardo tantas memórias das pessoas que conheci – pessoas simples, acolhedoras, que sorriem mesmo quando têm muito pouco. É impossível ver agora alguns desses lugares destruídos sem sentir um nó na garganta.
Uma das campanhas ativas para apoiar os afetados é a Help Sri Lanka – Sri Lanka Flood Crisis, disponível na Give.Asia:
👉 https://give.asia/campaign/help-sri-lanka-sri-lanka-flood-crisis-november-2025
Segundo a organização, mais de 12 milhões de pessoas foram afetadas em nove províncias.
Há famílias que perderam tudo: casas, plantações, rendimentos, animais, documentos – e, em muitos casos, familiares. A ajuda serve para garantir alimentos, água potável, abrigo temporário, cuidados de saúde e apoio à reconstrução.
Contribuir não é obrigatório. Mas, se te sentires chamado a isso, mesmo cinco euros podem fazer diferença para quem hoje não tem onde dormir ou o que comer.
E fica também o apelo mais amplo: qualquer região afetada por desastres – no Sri Lanka ou noutro canto da Ásia – merece a nossa atenção.
Se não puderes ajudar financeiramente, divulgar campanhas fiáveis e manter o assunto visível já ajuda mais do que imaginas.

Fotos: retiradas da página de angariação de fundos https://give.asia/