Chott El Jerid, o grande lago salgado do sul da Tunísia
Um amanhecer no meio do sal
Chott El Jerid é um daqueles lugares que parecem pertencer mais ao imaginário do que ao mapa. Uma imensa planície branca, quase sempre seca, estendida no sul da Tunísia, entre as regiões de Tozeur e Kebili, onde o sal, a luz e a linha do horizonte criam um cenário difícil de comparar com outro.
É uma das maiores extensões salinas do Saara e um dos espaços naturais mais marcantes do sul tunisino. A UNESCO descreve-o como uma vasta depressão salgada ligada a Chott Fejaj, enquanto a Ramsar reconhece a sua importância ecológica numa área protegida de 586.187 hectares.
Estava eu em Douz. Quatro da manhã e o telefone toca. Do outro lado, alguém pronunciando palavras estranhas que, mesmo meio a dormir, calculei que fossem árabes. A noite ainda era uma criança, mas era hora de retomar a viagem.
Com apenas algumas horas de sono e algum cansaço já acumulado, estava quase na hora de assistir a um momento único: o nascer do sol no lago salgado.

Um lugar moldado pelo tempo, pelo sal e pelo deserto
Mais do que um lago no sentido clássico, Chott El Jerid é uma grande depressão endorreica, raramente coberta de água à superfície, exceto nas zonas mais baixas ou depois de chuva mais intensa. O que hoje se vê é sobretudo uma vasta crosta de sal, gesso e outros sedimentos evaporíticos, num espaço moldado por processos geológicos e climáticos muito antigos.
A UNESCO refere que outrora existiu aqui um lago de grande extensão, mas que hoje o interesse do local é sobretudo hidrológico, geológico e geomorfológico.
A antiga associação do local ao mítico Lago Tritónide também ajuda a perceber porque é que Chott El Jerid aparece tantas vezes rodeado de lendas. Essa ligação deve ser vista mais como tradição ou leitura mítica da paisagem do que como um facto histórico fechado, mas mostra bem o impacto que este cenário teve ao longo do tempo.
Atravessar Chott El Jerid ao nascer do sol
O lago pode ser atravessado por estrada, numa travessia longa e muito exposta entre as regiões de Tozeur e Kebili. Esta é a única estrada que cruza o chott, ao longo de cerca de 80 quilómetros, e sair dela pode ser perigoso, já que a superfície é pouco estável.
Ao chegar ao lago, ainda de noite, mas já várias pessoas aguardavam ansiosamente pelo nascer do sol.
O Chott El Jerid, praticamente seco, tinha apenas alguns restos de água, daqueles que parecem postos ali de propósito para reforçar a experiência de quem chega. O chão, maioritariamente branco pelo sal, contrastava com pequenas manchas de água avermelhada e com o silêncio quase absoluto daquela imensa planície.
Uns metros mais ao lado, vários montes formados por mão humana envergavam bandeiras de várias nacionalidades, sendo que o monte mais alto tinha no topo a bandeira tunisina. A de Portugal também lá estava, embora num aglomerado de pedras bem mais pequeno, mas com tanta ou mais importância que qualquer outra bandeira no local.


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Uma luz ténue começou a tomar conta do horizonte do Chott El Jerid. Estava a chegar a hora.
Não foi o primeiro nascer do sol que observei, mas foi sem dúvida único, como é cada nascer do sol. Uma enorme planície deserta, com algumas montanhas ao longe, preenchia aquele cenário onde durante vários minutos tudo pareceu parar. Os tons laranja invadiram o céu limpo e começaram a refletir-se no branco do sal e nas pequenas bolsas de água que ainda resistiam.
Miragens, cores e um cenário quase irreal
Uma das imagens mais associadas a Chott El Jerid é precisamente essa sensação de irrealidade. O turismo oficial tunisino descreve esta zona como uma imensa superfície branca e cintilante, e a própria região de Douz fala em reflexos brilhantes e numa paisagem que parece quase coberta de neve. Não admira que o local tenha alimentado tantas descrições quase míticas e até servido de cenário a produções como Star Wars.
Embora eu não tenha assistido a nenhum fenómeno especialmente estranho, há quem vá precisamente à espera dessas miragens, mais visíveis quando a luz muda e o calor começa a distorcer a linha do horizonte. E percebe-se porquê. Chott El Jerid tem mesmo qualquer coisa de enganador: parece água onde não há água, parece liso onde o terreno é traiçoeiro, e parece simples quando na verdade é um lugar cheio de camadas.
Quanto às zonas avermelhadas de água, a explicação mais provável passa pela evaporação intensa, pela salinidade extrema e pela presença de microrganismos halófilos adaptados a estes ambientes. Em sistemas hipersalinos, estas tonalidades são frequentemente associadas a organismos pigmentados que prosperam quando a água fica residual e muito concentrada.
Foi, sem dúvida, um dos pontos altos desta viagem pelo sul da Tunísia e valeu totalmente o esforço de acordar de madrugada.
Existem várias excursões que passam por aqui durante o dia, mas continuo a achar que o impacto não deve ser o mesmo. Há lugares que pedem silêncio, espaço e luz certa. Para mim, este foi um deles.



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O que fazer em Chott El Jerid
Grande parte da experiência passa simplesmente por atravessar a estrada que corta o chott e parar em alguns pontos para observar a imensidão da paisagem, os padrões no sal e os efeitos de luz sobre a planície. É uma daquelas paragens em que o cenário em si é o motivo da visita. O turismo oficial tunisino enquadra Chott El Jerid dentro dos grandes percursos do Saara, tanto a partir de Douz como de Tozeur e Nefta.
Se as condições estiverem boas, dá para caminhar um pouco sobre a crosta de sal junto às zonas mais compactadas e fotografar o contraste entre o branco do solo e o azul do céu. Ainda assim, convém não ir demasiado longe da estrada nem assumir que a superfície é sempre sólida, sobretudo se houver água ou lama por baixo.
Também é comum incluir Chott El Jerid em roteiros mais longos pelo sul tunisino, combinando-o com Tozeur, Nefta, Douz, oásis e alguns locais ligados a Star Wars. A zona de Tozeur surge, aliás, como uma boa base para várias visitas cinematográficas no deserto.
Melhor altura para visitar
Para visitar Chott El Jerid com mais conforto, a melhor altura tende a ser fora do verão, sobretudo entre outubro e abril, ou até ao início de maio, quando as temperaturas durante o dia costumam ser mais suportáveis.
No verão, o calor pode tornar a experiência bastante mais exigente. Em Tozeur, uma das principais bases para visitar o chott, julho e agosto registam médias máximas de 39 ºC, com forte radiação solar e condições pouco agradáveis para caminhadas ou paragens prolongadas ao ar livre.
Em termos de luz e fotografia, o nascer e o pôr do sol continuam a ser os momentos mais interessantes. É nessa altura que as cores ficam mais suaves, as sombras mais longas e a paisagem ganha uma dimensão muito mais forte do que a meio do dia, quando a luz é dura e mais plana.
Duração da visita e logística
Na maior parte dos casos, Chott El Jerid entra no roteiro como uma etapa de estrada, com paragens relativamente curtas em um ou dois pontos panorâmicos. Não é tanto um local para passar horas a explorar em profundidade, mas sim um daqueles sítios onde bastam 20 a 40 minutos bem aproveitados para ficar a sensação de teres estado num lugar realmente diferente.
Na prática, funciona muito bem entre Douz, Tozeur e Nefta, e é frequente ser incluído em deslocações entre estas zonas do sul tunisino. Como se trata de uma paisagem natural aberta e atravessada por estrada, não há propriamente um circuito formal de visita.
O essencial é parar em segurança, observar com calma e não arriscar sair do asfalto ou das zonas claramente compactadas.

Dicas práticas e de segurança
Levar água, proteção solar, chapéu e óculos escuros é quase obrigatório. O reflexo do sal e a exposição constante tornam o ambiente bastante agressivo, mesmo fora do pico do verão. Em Tozeur, os meses quentes combinam temperaturas muito elevadas com índices UV intensos, o que ajuda a perceber porque convém não subestimar esta paisagem.
Se a ideia for fotografar o nascer do sol, também vale a pena levar uma camada extra de roupa nos meses mais frescos. No inverno, as noites e madrugadas no sul tunisino podem ser bem frias, apesar de o dia depois aquecer depressa. Em Tozeur, entre novembro e abril, as máximas médias são bastante mais agradáveis, mas as mínimas podem descer para valores frescos durante a noite.
Se o chott estiver parcialmente inundado, o melhor é redobrar a cautela e evitar caminhar muito para o interior. A superfície pode parecer firme à vista, mas não o ser na prática. Aqui, mais do que noutros lugares, compensa não inventar demasiado.
Mais do que paisagem: um espaço natural com valor real
Chott El Jerid não impressiona apenas visualmente. O local é reconhecido como Sítio Ramsar desde 2007 e está também na lista indicativa da UNESCO desde 2008, precisamente pelo seu valor natural, pela importância ecológica desta grande depressão salgada do sul tunisino e pelo seu interesse hidrológico e geomorfológico, incluindo a relação com os aquíferos fósseis subterrâneos que alimentam os oásis da região.
A Rosa-do-Deserto, símbolo do Saara
Esta é talvez a recordação mais conhecida e mais barata de uma visita ao sul da Tunísia. Por vezes aparece artificialmente colorida em tons de verde, azul ou vermelho, mas a sua graça está sobretudo na cor natural, entre o bege, o cinzento e o castanho claro.
A chamada rosa-do-deserto não é uma flor nem um objeto trabalhado à mão. É uma formação mineral natural, normalmente de gesso, que se forma em ambientes áridos e salinos quando a água subterrânea muito mineralizada evapora e faz precipitar cristais em forma de roseta. Esses cristais incorporam frequentemente grãos de areia, o que lhes dá aquele aspeto rugoso e pétreo que a distingue.
Na região de Chott El Jerid, estes exemplares são bastante conhecidos e fazem parte da imagem do sul tunisino. Não faltam à venda em bancas e lojas da região, e continuam a ser uma daquelas lembranças simples que acabam por fazer sentido trazer.
Recursos úteis
UNESCO, Chott El Jerid Útil para enquadrar a importância natural, geológica e paisagística do local. unesco.org
Discover Tunisia, Douz and Chott el-Jerid Contexto sobre a região, o ambiente do lago salgado e o enquadramento no sul tunisino. discovertunisia.com
Ramsar Sites Information Service, Chott El Jerid Para perceber o valor ecológico da área e o estatuto internacional de proteção da zona húmida. ramsar.org
Mapa da Localização do Chott el Jerid
Coordenadas Google Maps: 33.819866, 8.306523 | Chott el Jerid no Google Maps
Coordenadas GPS: 33°49’11.5″N 8°18’23.5″E