Entre civilizações antigas e a Jordânia atual
Embora a Jordânia seja um Estado independente apenas desde 1946, o território que hoje ocupa está ligado a milhares de anos de história. A sua posição entre a Península Arábica, o Levante e o Mediterrâneo transformou-o num corredor utilizado por comerciantes, exércitos, peregrinos e diferentes povos.
Essa sucessão de influências continua visível em locais como Petra, Jerash, Madaba, os castelos do deserto e as fortalezas das Cruzadas. A Jordânia moderna é relativamente recente, mas foi construída sobre um território onde se cruzaram algumas das principais civilizações e religiões da região.
Dos primeiros povoamentos aos reinos da Idade do Ferro
O território da atual Jordânia é habitado desde tempos pré-históricos. Perto de Amã, Ain Ghazal desenvolveu-se a partir do VIII milénio a.C. e tornou-se um dos principais assentamentos neolíticos conhecidos no Médio Oriente.
Foi neste local que se encontraram várias estátuas humanas feitas em gesso, datadas aproximadamente de 7000 a 6500 a.C. Estas figuras, algumas com dois rostos, estão entre as mais antigas representações humanas de grandes dimensões alguma vez descobertas.
Durante a Idade do Bronze existiram diferentes povoações fortificadas e comunidades agrícolas. Mais tarde, na Idade do Ferro, formaram-se três reinos principais: Amon, no norte; Moabe, nas terras a leste do Mar Morto; e Edom, no sul. Estes povos são várias vezes mencionados nos textos bíblicos e estiveram sujeitos, em diferentes períodos, à influência ou ao domínio dos Assírios, Babilónios e Persas.
A ligação entre estes reinos pode ainda ser reconhecida em alguns nomes atuais. Amã desenvolveu-se junto de Rabbath Ammon, a antiga capital dos Amonitas, enquanto a região de Kerak esteve integrada no território de Moabe.
O período helenístico e o reino dos Nabateus
As conquistas de Alexandre, o Grande, no século IV a.C. introduziram uma influência helenística mais forte na região. Nas décadas seguintes, partes do território foram disputadas pelos Ptolemeus do Egito e pelos Selêucidas da Síria.
Foi neste contexto que os Nabateus consolidaram um reino no sul da atual Jordânia, estabelecendo Petra como capital. A cidade tornou-se um importante centro de comércio entre a Península Arábica, o Egito e o Mediterrâneo, por onde circulavam incenso, especiarias, tecidos e outros bens trazidos de regiões distantes.
Mais do que as fachadas escavadas no arenito, o desenvolvimento de Petra dependeu de um sistema de canais, cisternas, barragens e reservatórios que permitia recolher e distribuir água numa região árida. Este conhecimento ajudou a sustentar uma população numerosa e a proteger a cidade das enxurradas.
Em 106 d.C., durante o reinado do imperador Trajano, o reino nabateu foi anexado pelos Romanos e integrado na província da *Arabia Petraea*. Petra manteve a sua importância durante algum tempo, embora as alterações nas rotas comerciais tenham provocado um declínio gradual.
Mais a norte, Gerasa, a atual Jerash, floresceu durante os períodos romano e bizantino. A cidade fazia parte da Decápole, um conjunto de cidades de influência greco-romana, e conserva teatros, templos, ruas com colunas, praças e outras estruturas que ajudam a perceber a dimensão que alcançou.
O período bizantino e a chegada do Islão
Depois da divisão do Império Romano, o território da Jordânia permaneceu integrado no Império Romano do Oriente, mais tarde conhecido como Império Bizantino. O Cristianismo expandiu-se e foram construídas igrejas, mosteiros e locais de peregrinação em diferentes regiões.
Em Madaba encontra-se o conhecido mapa da Terra Santa, um mosaico do século VI que representa Jerusalém e outros lugares da região. Junto ao rio Jordão, Al-Maghtas é reconhecido pela tradição cristã como o local onde Jesus terá sido batizado por João Batista.
A vitória dos exércitos árabes sobre os Bizantinos na batalha de Yarmouk, em 636, abriu caminho ao domínio islâmico. A região foi inicialmente integrada no Califado Rashidun, seguindo-se os Omíadas, com capital em Damasco, e os Abássidas, que transferiram o centro político para Bagdade.
O período omíada deixou alguns dos monumentos mais particulares da Jordânia, entre os quais Quseir Amra. Este pequeno palácio do deserto, construído no início do século VIII, conserva pinturas figurativas, cenas de caça e uma representação do zodíaco pouco comum na arquitetura islâmica daquele período.
Cruzadas, Mamelucos e domínio otomano
Durante as Cruzadas, o território voltou a adquirir importância estratégica por se encontrar entre Jerusalém, Damasco, o Egito e a Península Arábica. Os cruzados construíram fortalezas como Shobak, então conhecida como Montreal, e Kerak, que controlavam as principais rotas da região.
Após a vitória de Saladino sobre os cruzados no final do século XII, estas fortalezas passaram para o domínio dos Aiúbidas. Seguiram-se os Mamelucos, que governaram a região a partir do Egito e reforçaram várias rotas militares, comerciais e de peregrinação.
Em 1516, o território foi incorporado no Império Otomano, permanecendo sob o seu controlo até à Primeira Guerra Mundial. A presença otomana variou ao longo dos séculos, sendo mais forte nas cidades, nas rotas comerciais e nos centros administrativos.
No início do século XX foi construída a ferrovia do Hejaz, que ligava Damasco a Medina e atravessava localidades como Amã e Ma’an. Além de transportar peregrinos, a linha ferroviária tornou-se importante para o exército otomano.
Durante a Grande Revolta Árabe, iniciada em 1916 contra o domínio otomano, vários troços da ferrovia foram atacados. A tomada de Aqaba pelas forças árabes, em 1917, foi um dos momentos mais relevantes desta campanha e continua associada à história de Wadi Rum e à figura de T. E. Lawrence.
A formação da Jordânia moderna
Com o fim da Primeira Guerra Mundial e a dissolução do Império Otomano, o Médio Oriente foi reorganizado pelas potências europeias. Em 1921 foi criado o Emirado da Transjordânia, governado pelo emir Abdullah e sujeito à tutela britânica no âmbito do sistema de Mandatos.
A independência foi proclamada em 25 de maio de 1946, com Abdullah I como rei do então Reino Hachemita da Transjordânia. O país adotou o nome atual, Reino Hachemita da Jordânia, em 1949.
A família Hachemita, que tradicionalmente traça a sua linhagem até ao profeta Maomé através da sua filha Fátima e de Ali, já tinha desempenhado um papel central na Grande Revolta Árabe e manteve-se à frente do novo Estado.
A guerra que acompanhou a criação de Israel, em 1948, alterou profundamente a Jordânia. A Cisjordânia ficou sob controlo jordano e foi formalmente anexada em 1950, enquanto uma grande vaga de palestinianos procurou refúgio no país. Em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, Israel ocupou a Cisjordânia, provocando uma nova deslocação de população para território jordaniano.
Depois do assassinato de Abdullah I, em 1951, o trono passou brevemente para o rei Talal, durante cujo reinado foi aprovada a Constituição de 1952. Seguiu-se o rei Hussein, que governou entre 1952 e 1999 e atravessou alguns dos períodos mais instáveis da história regional.
As tensões entre o Estado jordano e organizações armadas palestinianas culminaram nos confrontos de 1970 e 1971, conhecidos como Setembro Negro. Nas décadas seguintes, a Jordânia procurou manter uma posição de equilíbrio entre os países árabes, a questão palestiniana e a sua relação com o Ocidente.
Em 1994, o rei Hussein assinou um tratado de paz com Israel. Após a sua morte, em 1999, foi sucedido pelo filho, Abdullah II, que continua atualmente à frente do país. A Jordânia recebeu também importantes vagas de refugiados vindos do Iraque e da Síria, reforçando o seu papel humanitário na região, mas aumentando a pressão sobre os recursos e os serviços públicos.
Sabias que?
A Jordânia conta atualmente com oito sítios classificados como Património Mundial da UNESCO: Petra, Quseir Amra, Um er-Rasas, Wadi Rum, Al-Maghtas, As-Salt, Umm Al-Jimal e a Reserva Marinha de Aqaba, inscrita em 2026. Apesar da sua importância arqueológica, Jerash continua apenas na lista indicativa da UNESCO.
O Mar Morto encontra-se a mais de 430 metros abaixo do nível médio do mar, embora este valor continue a mudar devido à descida do nível da água. A sua salinidade, superior a 30%, torna a água muito densa e facilita a flutuação, mas isso não significa que seja impossível afundar ou que se possa nadar sem cuidados.
Em 2007, Petra foi escolhida como uma das Novas Sete Maravilhas do Mundo numa votação internacional promovida pela organização privada New7Wonders. Esta distinção não está relacionada com a UNESCO, que tinha classificado Petra como Património Mundial em 1985.
Língua na Jordânia
O árabe é a língua oficial da Jordânia. No ensino, nos meios de comunicação e nos documentos oficiais utiliza-se principalmente o árabe moderno padrão, enquanto nas conversas do quotidiano se falam diferentes variedades do árabe jordaniano.
Nas cidades do norte e na região de Amã predomina uma variante próxima do árabe levantino. No sul e entre comunidades de origem beduína encontram-se pronúncias e expressões diferentes.
O inglês é bastante utilizado nos hotéis, restaurantes, empresas e principais locais turísticos. Ainda assim, não deve ser considerado garantido em mercados, transportes locais, aldeias ou regiões menos visitadas. Aprender algumas palavras em árabe costuma ser bem recebido e pode facilitar pequenas interações.
O francês é ensinado em algumas escolas e instituições, mas tem uma presença bastante mais reduzida do que o inglês. Não existe na Jordânia uma herança colonial francesa comparável à encontrada na Síria ou no Líbano.
Frases úteis em árabe
- Marhaba – Olá
- Ahlan wa sahlan – Olá ou bem-vindo
- As-salamu alaykum – A paz esteja convosco; saudação comum e respeitosa
- Wa alaykum as-salam – E convosco esteja a paz; resposta à saudação anterior
- Shukran – Obrigado
- Afwan – De nada; também pode ser usado como “desculpe” ou “com licença”
- Min fadlak / min fadlik – Por favor, dirigindo-se respetivamente a um homem ou a uma mulher
- Aywa / na’am – Sim; *aywa* é mais coloquial e *na’am* mais formal
- La – Não
- La, shukran – Não, obrigado
- Ma’a salama – Adeus ou vai em segurança
- Sabah al-khair – Bom dia
- Inshallah – Se Deus quiser (expressão muito utilizada quando se fala de acontecimentos futuros)
A transliteração do árabe para o alfabeto latino não segue uma única regra, pelo que é normal encontrar estas palavras escritas de formas ligeiramente diferentes.
Cultura na Jordânia
Religião na Jordânia
O Islão é a religião oficial da Jordânia e cerca de 97% da população é muçulmana, na sua grande maioria sunita. A religião influencia o ritmo diário, os horários das orações, os feriados e alguns hábitos sociais.
Durante o Ramadão, muitos jordanianos jejuam entre o nascer e o pôr do sol. Os horários de restaurantes, lojas, monumentos e transportes podem sofrer alterações, enquanto as ruas tendem a ganhar mais movimento depois do *iftar*, a refeição que quebra o jejum.
A Jordânia possui também uma minoria cristã com raízes históricas antigas, formada por comunidades greco-ortodoxas, católicas e de outras denominações. Em cidades como Madaba e As-Salt, igrejas e mesquitas fazem parte da mesma paisagem urbana.
O território tem ainda importância religiosa para o Judaísmo, o Cristianismo e o Islão. O monte Nebo está ligado à tradição de Moisés e da Terra Prometida, enquanto Al-Maghtas é um dos principais destinos de peregrinação cristã do país.
Convenções sociais na Jordânia
A hospitalidade tem um papel importante na sociedade jordana e está particularmente associada às tradições árabes e beduínas. Chá, café ou comida podem ser oferecidos como forma de receber alguém, mas é possível recusar educadamente quando não se pretende aceitar.
O café árabe é geralmente servido em pequenas chávenas, começando com uma quantidade reduzida. Quando não quiseres beber mais, podes abanar ligeiramente a chávena antes de a devolver. Ao receber comida, café ou outro objeto, é preferível utilizar a mão direita.
Entre homens, o aperto de mão é comum e amigos próximos podem cumprimentar-se com um beijo na face. Algumas pessoas evitam o contacto físico entre homens e mulheres que não pertencem à mesma família. Por isso, o mais simples é esperar que a outra pessoa tome a iniciativa.
Não existe uma regra única de vestuário para todos os visitantes, mas peças que cubram os ombros e os joelhos são uma escolha adequada em mesquitas, igrejas, zonas rurais e localidades mais conservadoras. Esta recomendação aplica-se tanto a mulheres como a homens.
As demonstrações públicas de afeto devem ser discretas. Também é aconselhável pedir autorização antes de fotografar pessoas, especialmente em mercados, aldeias e comunidades beduínas.
A família e as relações pessoais têm bastante importância nas conversas. Perguntas sobre a origem, o trabalho, o estado civil ou a família podem surgir pouco depois de conhecer alguém e nem sempre têm a intenção de ser indiscretas.
As refeições são frequentemente momentos demorados e partilhados. Pratos como o mansaf podem ser servidos numa travessa comum e, em contextos tradicionais, comidos com a mão direita. Não se espera que um visitante conheça todos os hábitos, pelo que observar as outras pessoas costuma ser suficiente.
A sexta-feira é o principal dia semanal de oração. Alguns estabelecimentos encerram durante parte do dia e os horários podem ser mais reduzidos, enquanto a semana de trabalho decorre geralmente de domingo a quinta-feira.
A herança beduína ocupa um lugar importante na identidade nacional, sobretudo no sul e em regiões como Wadi Rum. Ainda assim, a Jordânia atual é um país bastante urbanizado e socialmente diverso, pelo que não se deve confundir toda a cultura jordana com a vida no deserto.