Açores: Subida à Montanha do Pico

por Nuno Madeira
Açores: Subida à Montanha do Pico | Diário do Viajante

Ainda me lembro que assim que me foi feito o convite para subir a Montanha do Pico, que não pensei duas vezes e aceitei logo o desafio. Iria juntamente com um grupo de amigos que pertence à Fraternidade Nuno Álvares do Núcleo Prazeres.

Era uma atividade de 4 dias que, para além da subida à Montanha do Pico, iria também contar com a visita a alguns locais da Ilha do Pico como o Museu do Vinho, a Paisagem Cultural da Vinha do Pico, Museu da Indústria Baleeira, entre outros.

Antes da viagem, uma pequena preparação que envolveu conhecer um pouco mais da Montanha do Pico, do percurso e das dificuldades que poderíamos encontrar.

Neste tipo de percursos convêm certificarmo-nos que estamos em boas condições de saúde e que temos o equipamento adequado não só para realizar o percurso, mas para nos protegermos das condições climatéricas inerentes à época do ano em que é realizada a subida.

Com um percurso que iria rondar os 7500 metros, no total, deveríamos ter em conta vários fatores que deram origem à criação da Carta de Princípios de Escalada à Montanha do Pico, mas logo no primeiro ponto já estaríamos a falhar já que recomendam que a subida seja realizada nos meses de verão…

Uns dias antes da viagem comecei a ver com frequência as condições climatéricas na Ilha do Pico através de WEBCAMS e o prognóstico não era muito bom. O facto de realizarmos a subida em pleno inverno iria certamente dificultar.

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O dia da subida começou muito cedo. Eram 7h00 e era necessário preparar o que faltava para subir à montanha, mas acima de tudo, perceber as condições climatéricas.

Olhando para a montanha, era possível ver o cume sem nuvens mas as previsões apontavam o contrário com a chegada de vento forte.

Colocou-se a hipótese de adiar a subida, mas isso implicaria no dia seguinte fazermos a subida e depois apanharmos o avião para Lisboa, mas bastava haver um contratempo para as coisas não correrem bem.

O nosso guia voltou a confirmar as previsões, sem alterações… vento forte e muita nebulosidade. Não demos por vencidos e avançámos em direção à montanha.

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A caminho da Casa da Montanha, pelas 8h00, já as nuvens cobriam parte da ilha e não faltava muito para acontecer o mesmo ao cume. Em poucos minutos o tempo mudou por completo.

Já de mochila às costas, a subida começou por volta das 8h30 e não sabíamos aquilo que nos esperava.

O trilho, embora bem marcado, é muito pouco uniforme. Grande parte do trilho é realizado em rocha vulcânica muito irregular, com muitos buracos, pelo que todo o cuidado é pouco, principalmente quando o piso está molhado.

O trilho está marcado com marcos de madeira com cerca de 1 metro de altura, pintados no topo de amarelo e vermelho, e numerados de 1 a 45. Estão colocados a distâncias diferentes uns dos outros mas seria suposto ter sempre dois marcos de madeira visíveis no decorrer do percurso, ou seja, do marco número 7 deveria ser possível visualizar o marco número 8 (para cima) e o marco número 6 (para baixo), no entanto, não sei se isto acontece porque tanto na subida como descida a nossa visibilidade muitas vezes não era superior a 50 metros o que dificultava a confirmação desta “teoria”.

A subida até ao marco 5 fez-se sem grandes dificuldades, à exceção do terreno bastante irregular, mas sem muito vento ou qualquer outra condição climatérica adversa, contudo, a partir do marco 6 a coisa complicou.

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Começamos a entrar na neblina e a visibilidade desceu drasticamente. O vento de Norte começou a deslocar-me mais rapidamente e com a densa neblina, começámos a ficar com a roupa molhada.

A partir daqui foi sempre a piorar. O terreno foi sempre muito irregular e os bastões ajudaram muito, não só na subida mas também na descida onde provavelmente desempenharam uma função mais importante.

Uma paragem rápida para colocar roupa impermeável, e a subida continuou.

À medida que fomos subindo a vegetação começou a ser mais escassa, dispersa e de dimensões mais reduzidas. Isto deve-se ao facto de apenas algumas espécies conseguirem sobreviver à dureza do clima no topo da montanha.

Com condições climatéricas favoráveis, também seria possível ver o resultado das erupções vulcânicas que ali aconteceram, bem como algares e túneis lávicos, mas tal não nos foi possível. Por estas razões, é importante não se desviarem do trilho para não correrem riscos desnecessários.

Embora não sendo uma escalada muito técnica, a subida à Montanha do Pico está classificada com grau de dificuldade médio / elevado. Esta classificação provavelmente terá a ver com o tipo de piso irregular e o desnível acentuado que é necessário ultrapassar.

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Quanto mais subíamos, pior o tempo ficava. Mais vento, mais frio e chuva. Houve um momento onde se questionou se continuávamos ou não a subir já que as condições só tendiam a piorar quanto mais perto do cume estivéssemos mas, a decisão de seguir foi unânime porque queríamos atingir o objetivo a que nos tínhamos proposto. Chegar ao cume.

A razão para termos continuado também se deveu ao facto de estarmos com guia porque não sei se seria possível chegar ao topo sem ele. A determinado momento recordo-me que fizemos um percurso alternativo para estarmos mais abrigados do vento ao ponto de termos ficado uns tempos sem seguir os marcos de madeira e só voltámos a ter contacto com os mesmos já quase a chegar à cratera.

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Já quase a chegar ao topo, a entrada na cratera foi uma das partes mais complicadas. A parede tem uma inclinação muito acentuada e o cansaço já começa a fazer das suas.

Mal passámos o vértice da cratera e, para além de vermos vestígios de neve no chão, o vento quase que atira connosco. Ventos cruzados e de grande intensidade faziam-se sentir em todo o lado e não havia como nos proteger do vento e da chuva que teimava em não nos largar.

A cratera, de forma arredondada, tem cerca de 700 metros de perímetro e uma profundidade de 30 metros. No centro surge uma outra elevação de menor dimensão a que foi dado o nome de Pico Pequeno ou Piquinho, com cerca de 70 metros de altura. E foram estes os últimos metros para alcançarmos o nosso objetivo.

Finalmente tínhamos chegado ao Piquinho, a 2351 metros de altitude, o ponto mais alto da Ilha do Pico e de Portugal. Objetivo alcançado! A inscrição “1994” no marco geodésico marca o lugar.

Na base do Piquinho, em condições climatéricas favoráveis será possível ver fumarolas vulcânicas com forte teor de enxofre mas, da maneira que o vento passava ali no topo, não havia cheiro a enxofre ou qualquer outra coisa. O frio era muito, a chuva continuava a cair e não existia local para nos abrigarmos.

A uns metros de distância do marco geodésico podem encontrar uma pequena estrutura rochosa vertical, com uma pequena escultura feita em pedra que se assemelha a uma cara, com um sorriso.

Esta esfera de pedra foi realizada pela artista Helena Amaral e foi transportada e colocada naquele local pelo nosso guia, uns dias antes. Existem muitas outras peças destas espalhadas pela ilha e se tiverem interesse em saber mais, podem consultar a publicação Sorrisos de pedra na Ilha do Pico.

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Infelizmente, devido às condições climatéricas não foi possível observar a paisagem que dizem que é de cortar a respiração até porque serie espectável ver todas as ilhas do grupo central, no entanto, valeu pela experiência, pelas dificuldades ultrapassadas e pela união do grupo em todo o percurso.

Para recordar fica aquela sensação de objetivo alcançado mesmo com tantas dificuldades pelo caminho. É incrível como conseguimos desafiar os nossos limites e supera-los!

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A 2351 metros de altitude, o ponto mais alto de Portugal (06.02.2016)

Infelizmente devido ao tempo, apenas levei comigo a GoPro uma vez que não iria ter problemas em caso de chuva e por essa razão foram muito poucas as fotos que tirei. Aproveitei antes para ir fazendo umas filmagens que agora compilei num pequeno vídeo.

Não é fácil resumir uma aventura de quase 8 horas em apenas alguns minutos mas foi o que tentei fazer neste curto vídeo para que possam confirmar as condições adversas a que estivemos sujeitos.

Estatísticas calculadas a partir de dados importados do GPS

Sábado, 6 de Fevereiro de 2016 8:30 AZOT (início)
Distância: 7,4 km
Duração: 7 horas, 52 minutos e 22 segundos
Velocidade média: 0,9 km/h
Elevação mínima: 1271 m
Elevação máxima: 2404 m
Total da subida: 1133 m
Total da descida: 1108 m

NOTA: valores aproximados e registados com telemóvel.

Material/ Equipamento mínimo a levar (adequar à estação do ano)

  • Botas de montanha
  • Roupa confortável
  • Casaco impermeável/ corta vento
  • Luvas (e gorro)
  • Água (pelo menos 1,5L p/ pessoa)
  • Fruta e/ou barras energéticas
  • Bastões (na Decathlon pode comprar a partir de 5 €, ou caso vá com guia, pergunte se está incluído no valor)
  • Telemóvel (com GPS)
  • Lanterna pequena
  • Câmara fotográfica

Informações Úteis, Avisos e Recomendações

A Casa da Montanha é passagem obrigatória para todos. É aqui que é realizado o registo de entrada na montanha e onde recebe o equipamento de rastreio GPS que permite pedir ajuda à Casa da Montanha, ou aos Bombeiros, em caso de emergência (atenção, ver Regulamento de Acesso à Montanha do Pico para mais informações). Caso os visitantes não regressem à hora estimada, serão contactados através do dispositivo para confirmação da condição.

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Mesmo não sendo obrigatório, recomendo que contactem um guia credenciado (através do Posto de Turismo) para vos acompanharem na subida. Embora as condições climatéricas possam estar favoráveis, as mesmas podem mudar repentinamente e mesmo que tenham experiência em caminhadas, é mais seguro.

O Regulamento de Acesso à Montanha do Pico refere um limite máximo de 160 visitantes em simultâneo, no entanto, este número pode aumentar dependendo das condições climatéricas.

A permanência no Piquinho (cume) está limitada a 30 visitantes e não pode ultrapassar um período máximo de 30 minutos, salvo quando acompanhado por um guia de montanha credenciado, em que esse período pode ser prolongado por mais 30 minutos.

O trilho tem uma extensão total de 7600 metros (3800 da Casa da Montanha até ao cume), com um desnível de 1100 metros (inicia-se a 1230 metros na Casa da Montanha e o cume está a 2351 metros), e demora normalmente 8 horas (3 a 4 horas para cada lado).

O trilho começa e termina na Casa da Montanha, não sendo possível circular fora do trilho PR4 PIC Montanha. O mesmo está assinalado por 45 marcos de madeira com cerca de 1 metro de altura, pintados a amarelo e vermelho no topo, e espaçados de forma não uniforme.

Não é possível acampar na Reserva Natural da Montanha da Ilha do Pico, a não ser a pernoita na cratera. Neste caso, o ideal será subir a meio da tarde para que possa assistir ao pôr-do-sol e preparar com tempo o espaço da pernoita. Esta situação requer que transporte mais peso e é obrigatório levar saco cama e tenda. É ainda recomendável levar roupa leve, mas quente, uma vez que à noite as temperaturas podem descer consideravelmente, mesmo em época de verão.

Caso pretendam ver o nascer do sol no cume, recomenda-se que a subida seja realizada por volta das 4 da manha (ou mais cedo), e acompanhados por um guia de montanha credenciado.

Em dias de céu limpo, e em subidas realizadas a meio do dia, recomenda-se a colocação de protetor solar.

Nos dias que antecedem a subida, consultar com frequência websites de meteorologia como o WindGuru para não ter nenhuma surpresa desagradável. No dia da subida, pedir informações na Casa da Montanha sobre eventuais duvidas com as condições climatéricas do momento.

A Ilha do Pico tem muito mais para ver que a Montanha do Pico. Reserve mais um ou dois dias para percorrer a Ilha e aproveite para visitar o Museu do Vinho, a Paisagem Cultural da Vinha do Pico, o Museu da Indústria Baleeira, o Museu dos Baleeiros, a Gruta das Torres e o  Centro de Interpretação da Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico. Mais informações no site oficial de Turismo dos Açores.

Casa da Montanha

A Casa da Montanha é o ponto de paragem obrigatório para quem pretende subir ao topo da Montanha do Pico. É aqui que é prestado todo o apoio aos visitantes e onde se efetua o registo e controlo das subidas.

Disponibiliza ainda informações sobre a geologia, biologia, clima e enquadramento legal da Reserva Natural da Montanha do Pico, quer em painéis informativos, quer em formato de filme, que pode ser visualizado no auditório.

Serviços

Informação, apoio e registo de subidas à montanha; Auditório; Projeção de filme/documentário; Loja; Cafetaria; Multibanco/VISA; WC – mobilidade condicionada; Parque de estacionamento.

Horários

16 de outubro a 30 de abril
Todos os dias > 08h00 às 18h00
01 a 31 de maio e de 01 a 15 de outubro
Segunda a quinta > 08h00 às 20h00
Das 08h00 de sexta às 20h00 de domingo > aberto sem interrupções
01 de junho a 30 de setembro
Todos os dias > 24 horas

Nota: Os horários podem sofrer alterações tendo em conta as condições climatéricas.

Preço de Subida à Montanha

Subida autónoma: 10 € (inclui equipamento de rastreio GPS)
Para outros valores, consultar a página oficial do Governo dos Açores.

Contactos

Morada: Caminho Florestal nº 9, Candelária, 9950 Madalena
Telf. (+ 351) 967 303 519
E-mail: [email protected]
Website: http://parquesnaturais.azores.gov.pt/
Coordenadas GPS 38° 28′ 14.196″ N 28° 25′ 34.860″ W | Google Maps

Documentos

Pedido de autorização para subidas autónomas (a entregar na Casa da Montanha)
Regulamento de Acesso à Montanha do Pico
Normas de Conduta na Montanha do Pico

Caso algum dos links não funcione, visite o endereço da Casa da Montanha.

Mapa do Percurso

Coordenadas Casa da Montanha (início): 38.47061, -28.42635 | abrir Google Maps
Coordenadas Pico (topo): 38.468657, -28.399272 | abrir no Google Maps

Percurso: track_subida_montanha_do_pico.zip (ficheiro GPX)

4 comentários

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4 comentários

Pedro 4 Novembro 2018 - 0:56 Responder
Nuno Madeira 4 Novembro 2018 - 14:34

Imagens fantásticas Pedro, obrigado pela partilha! Espero um dia voltar no verão para ter também essa sorte e essa visão 🙂 abraço

Responder
Marlene Marques 2 Agosto 2019 - 17:03

Esta está em falta na minha lista 😉 Grandes dicas!

Responder
Nuno Madeira 2 Agosto 2019 - 19:28

Eu quero voltar a fazer, mas desta vez com tempo bom porque esta subida não foi nada fácil 🙂

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