O que esconde a muralha de Ávila

por Nuno Madeira
O que esconde a muralha de Ávila | Diário do Viajante

A cidade espanhola de Ávila, com pouco mais de 55.000 habitantes, é uma cidade muralhada e apresenta-se fortemente marcada pela história, sobretudo dos séculos XII e XV. A sua muralha, com cerca de 2500 metros de extensão, possui 9 entradas e 87 torres redondas.

Em 1985, a cidade de Ávila, bem como as suas igrejas fora da muralha, foram incluídas na lista de Património Mundial da UNESCO.

Foram as várias fotos da muralha que me abriram a curiosidade sobre esta pequena cidade no centro de Espanha. O clima da cidade é em grande parte influenciado pela sua altitude, a mais de 1100 metros, o que faz os invernos serem bastante frios, com queda de neve, e o verão com temperaturas elevadas.

Iniciei esta visita à cidade pela Puerta de Santa Teresa, na zona sul da cidade, devido à facilidade no estacionamento. A norte também existe um grande estacionamento, bem como a Este, para quem entra pela porta que dá acesso à Catedral.

Igreja e Convento de Santa Teresa de Jesus

Assim que passamos o arco, na Plaza de la Santa, encontramos a Igreja de Santa Teresa de Jesus, construída sobre o local de nascimento de Teresa de Cepeda e Ahumada, mais conhecida por Teresa de Jesus, formando conjunto com o convento.

No piso inferior, subterrâneo, existe uma grande cripta funerária em abóbora, atualmente utilizada como Museu de Santa Teresa e é o único exemplo da sua espécie na arquitetura religiosa espanhola.

A fachada, esculpida na pedra, é organizada em três secções, dando destaque à estátua de mármore da santa e aos brasões das famílias Cepeda e Ahumada. Em 1886 a Igreja e o Convento foram designados Monumento Histórico e no seu interior podemos encontrar as esculturas de Gregorio Fernández (século XVII).

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Igreja e Convento de Santa Teresa de Jesus
Localização: 40.65534, -4.70277 | Google Maps

Seguindo caminho em direção ao topo da muralha, importa referir que existem apenas quatro pontos de acesso e duas secções onde pode circular. Uma mais pequena, com apenas 260 metros, com vista para a zona Sul e Este da muralha. A outra secção, mais extensa, com cerca de 1440 metros, dá uma visão mais ampla para a zona Este, toda a zona Norte e parte da zona Oeste. Em qualquer um destes pontos pode entrar ou sair, com o respetivo ingresso, no valor de 5,0 €.

Embora não esteja assinalada a zona Sul no mapa em baixo, retirado do website oficial, eu tive acesso a essa zona, tal como vou descrever já a seguir, no entanto, podem ter alterado e limitado este acesso agora apenas à zona Este.

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Zona Sul/Este (260 metros)
Plaza Adolfo Suárez (Puerta del Acázar)

Zona Este/Norte/Oeste (1440 metros)
Posto de Turismo, Calle San Segundo – Este (Puerta de la Catedral)
Plaza Concepción Arenal – Norte (Puerta del Carmen)
Calle Marquês de Santo Domingo – Oeste (Puerta del Puente)

Já na Plaza Adolfo Suárez, é tempo de subir os degraus em pedra para ter uma melhor visão sobre a cidade e o que a rodeia. Esta é a secção da muralha com menor extensão, apenas 260 metros, mas é suficiente para perceber o que rodeia a zona Sul fora as muralhas, bem como ter uma bonita vista sobre parte da Catedral de Ávila.

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Em dias que sabe que podem vir a ser de calor intenso, sugiro que a visita à muralha seja feita logo pela manha, como eu fiz, uma vez que não tem sombras para se abrigar e o calor intenso, com a subida e descida dos degraus das torres, vai consumir energia a dobrar. Nem todas as torres estão abertas mas as que estão são mais que suficientes para aproveitar as vistas.

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Ainda nesta secção, olhando para Este, vai encontrar a Parroquia de San Pedro Apóstol na Plaza del Mercado Grande, sendo a sua construção muito semelhante à da Basílica de San Vicente. Foi aqui que os monarcas juraram respeitar os privilégios de Castela, refletindo a importância desta igreja no período de maior importância politica da cidade.

Com formato de cruz latina, a sua nave central é maior que as naves laterais e a sua construção começou no segundo quarto do século XII terminando no século XIII, após um período em que as obras estiveram suspensas. A arquitetura e a decoração evidenciam a evolução devido aos atrasos na construção.

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Catedral de Ávila

Deixando para trás a primeira secção da muralha, passamos pela Catedral de Ávila que permanece tanto como igreja como fortaleza uma vez que está ligada à muralha e a sua torre é a mais imponente da parede Este.

Considerada como a primeira catedral gótica em Espanha, ergueu-se sobre as ruínas de um edifício que foi dedicado a El Salvador. Em 1172, Alfonso VIII decidiu alargar o edifício original e encomendou o projeto ao construtor e mestre francês, Fruchel.

A Catedral conta com duas entradas. A principal, ladeada por duas torres, uma delas inacabada, que dão o aspeto de igreja-fortaleza. Já a segunda porta, a dos Apóstolos, está localizada na lateral.

A entrada tem um custo de 5,0 € mas existem descontos para grupos.

Mais informações sobre outros valores e/ou horários em http://catedralavila.vocces.com/

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Catedral de Ávila
Localização: 40.65578, -4.69704 | Google Maps

Depois da visita à Catedral, é tempo de voltar à muralha para a secção Este/Norte/Oeste. Desta vez a subida faz-se pelo interior do edifício de Turismo de Ávila onde irá encontrar uma maquete/réplica da muralha.

Basílica de San Vicente

De volta ao topo da muralha, e depois de caminhar alguns metros, facilmente se depara com a Basílica de San Vicente do lado de fora da muralha.

Construída em granito, e fortemente influenciada pela topografia, foi construída onde a tradição diz que foram martirizados e enterrados Vicente, Sabina e Cristeta.

A sua construção começou por volta de 1120, com a construção da parte central até à entrada Oeste. As torres e a entrada principal foram construídas entre 1150 e 1170. Este modelo de arquitetura românica torna-o num exemplar único em Ávila devido às suas proporções.

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Basílica de San Vicente
Localização: 40.65801, -4.69601 | Google Maps

Percorrer a muralha é sem dúvida uma excelente forma de perceber a grandiosidade deste monumento histórico e a cidade que protege.

A data da construção da muralha é uma questão controversa já que alguns sugerem que, de acordo com a tradição, foi construída no final do século XI, enquanto outros sugerem que a maioria das obras tiveram lugar durante a segunda metade do século XII e início do século XIII, como é o caso de várias construções militares vizinhas.

Construída sobre bases de pedra, as suas paredes feitas com alvenaria de granito, pedra e argamassa, permanecem intactas e deixam transparecer o poderio da defesa da cidade. Com uma forma de quadrilátero irregular, ou seja, quase como um retângulo, está posicionada de Este a Oeste.

A sua construção começou do lado mais vulnerável (Este), onde não existem elementos naturais de defesa obrigando a um reforço extra das paredes. Com uma largura de 3 metros e 12 metros de altura, tem a cada 20 metros uma torre, redonda, que se eleva 8 metros acima da altura da muralha.

No final do século XIX, algumas personalidades defenderam a demolição da muralha tal como estava acontecendo noutras cidades europeias por ser considerada uma barreira para o desenvolvimento urbano, no entanto, a insistência da Câmara Municipal e a falta de financiamento para o trabalho de demolição impediu que a muralha fosse retirada.

Se tiver curiosidade em aprender mais sobre esta fortificação, pode consultar o site oficial com muita informação útil, em http://muralladeavila.com/

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Descendo a muralha em direção a Oeste, vai encontrar ao longe a Capela de Mosén Rubí (Capilla de Mosén Rubí) na praça com o mesmo nome. Este conjunto arquitetónico consiste na união do Hospital da Anunciação (convertido em Convento Dominicano após 1872) e a Capela de Mosén Rubí, cuja arquitetura reflete a coexistência do estilo gótico tardio e o estilo renascentista.

Com uma planta poligonal, os cantos são reforçados com contrafortes e decorados com brasões típicos de Ávila nas suas extremidades. A nave, de estilo renascentista, tal como a frente principal e o arco reforçado, são atribuídos a Pedro de Tolosa e Pedro del Valle. Com uma disposição em cruz grega, a capela é coberta por uma abóbada de estilo gótico tardio e a nave tem uma abóbada semiplana, separada da capela principal, pelos seus arcos renascentistas.

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Todo o edifício foi feito com vários tipos de granito e foi designado Local de Interesse Cultural em 1983.

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Depois de passar a Puerta del Mariscal, e quase a chegar à Puerta del Carmen com uma silhueta inconfundível, temos uma vista sobre o exterior da muralha onde a grande maioria das pessoas tira a sua foto preferida. Uma vez que a muralha neste local está desfasada, é possível olhar em direção a Oeste e perceber uma vez mais a poderosa imagem que esta muralha deixa transparecer.

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Puerta del Carmen (Convento del Carmen)

Com uma silhueta inconfundível, é uma das mais famosas entradas na cidade tendo existido neste mesmo local a Igreja românica de São Silvestre, fundada no século XV.

Em 1670 o rei foi abordado para a construção de uma torre na parede em relação à muralha, mas devido ao mau estado de conservação, Carlos II concedeu o privilégio de erigir um campanário esguio do parapeito do muro.

Destruída durante a Guerra da Independência, foi posteriormente reconstruída e serviu várias funções tendo sido uma delas uma prisão. Desse facto surgiu o nome “arco de la carcel” (arco da prisão) pelo qual também é conhecida a Puerta del Carmen.

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Terminada a caminhada pelo topo da muralha, é tempo de ver uma vez mais este monumento mas da parte de fora, e nada melhor que uma pequena caminhada até Los Cuatro Postes.

Saindo pela Puerta del Puente, a Oeste, verá no alto uma pequena estrutura que parece inacabada. São apenas 10 minutos de caminhada até lá e vai ver que vale a pena.

Los Cuatro Postes

Na margem esquerda do rio Adaja, e com uma vista privilegiada para a cidade a partir de Oeste, encontramos o santuário San Sebastian, popularmente conhecido como Los Cuatro Postes.

Este pequeno monumento é constituído por quatro colunas dóricas monolíticas com 5 metros de altura, ligadas por uma arquitrave com o escudo da cidade e, no centro, uma cruz de granito.

A data da sua construção é também uma questão de controvérsia. Há quem defenda que a sua construção é de 1566, enquanto outros defendem que é do tempo dos Romanos onde existiu um pequeno templo.

Há ainda quem defenda também que foi construído para comemorar o lugar onde Francisco de Cepeda encontrou Teresa de Jesus e o seu irmão Rodrigo, quando fugiram para morrerem mártires em terras árabes.

Mais tarde, quando Teresa é expulsa da cidade pelas suas divergências religiosas, terá parado naquele mesmo local e, tirando as sandálias que levava calçadas, disse “de Ávila, ni el polvo” (de Ávila, nem o pó). Felizmente mais tarde, Teresa reconciliou-se com a sua terra natal.

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Este local é sem dúvida uma visita obrigatória, de dia ou de noite, com especial destaque para o pôr-do-sol já que o mesmo ilumina a parede Oeste da muralha.

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De regresso ao interior da muralha, recomendo uma caminhada pelas ruas estreitas mas nobres da cidade. Não é fácil perder-se até porque o interior da muralha não é muito grande.

Não pode deixar de passar na Plaza del Mercado Chico onde também encontrará a Igreja de San Juan Bautista, bem como a Torre de Los Guzmanes, na Plaza Corral de las Campanas, onde está localizada a Diputación Provincial de Ávila que é a instituição a que corresponde o governo e administração da província de Ávila.

Estas duas praças, bem como a Plaza de la Santa na qual iniciei o percurso, são alguns dos locais mais movimentados, durante o dia, no interior da muralha.

Outros locais a não perder.

Real Monasterio de Santo Tomás
Localização: 40.65041, -4.68885 | Google Maps

Plaza del Mercado Chico
Localização: 40.656460, -4.700177 | Google Maps

Torre de Los Guzmanes
Localização: 40.65532, -4.70124 | Google Maps

Ayuntamiento de Ávila
Localização: 40.6567617,-4.7000961 | Google Maps

Palacio de los Verdugo
Localização: 40.65745, -4.69799 | Google Maps

Mapa

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